Desmatamento coloca em risco recursos hídricos na Amazônia
Entenda como a retirada da vegetação nativa na Bacio do Rio Acre aumenta o risco de eventos extremos e afeta toda a população.
As florestas são ecossistemas complexos onde árvores, rios, vida selvagem e populações humanas estão profundamente interconectados. Por isso, a degradação de qualquer um desses elementos provoca um efeito em cadeia que desequilibra todo o ecossistema. A grandiosidade da Floresta Amazônica reflete sua relevância para o equilíbrio climático global, e a perda contínua de sua vegetação nativa já gera impactos visíveis e preocupantes.
A bacia do Rio Acre está localizada na Amazônia Sul Ocidental e deságua na margem direita do Rio Purus. Sua área total é de 35. 792 km² e atravessa 10 municípios do Acre, incluindo a capital, Rio Branco, o que equivale a um quinto da área total do estado e abrange 60% da população acreana. Esses dados demonstram o quanto a Bacia do Rio Acre é essencial para o abastecimento de água e subsistência de pessoas nas áreas urbana e rural.
Estudos na região mostram que a bacia hidrográfica passa por um intenso processo de retirada da cobertura florestal nativa, principalmente próximo às nascentes, com a finalidade de desenvolvimento de atividades agropecuárias. A microbacia São João, afluente do Rio Acre, sofreu um forte impacto ambiental ao longo dos anos. Até 2007, foram desmatados 235,44 km² da cobertura vegetal original, o que representa 74,18% do território total da microbacia.
A redução da floresta em áreas de bacia hidrográfica gera alteração na oferta de água e contribui para a ocorrência de eventos extremos, como secas e alagações recorrentes ano após ano. Para a geógrafa Janaína Costa, é urgente e importante a preservação das nascentes e cursos d’água. “Com índices de desmatamento tão elevados (ambos acima de 70%), a proteção dos remanescentes de florestas ao redor dos rios e nascentes, conhecidas como matas ciliares, torna-se uma questão de sobrevivência para a região”, ressalta.

A retirada da vegetação acarreta diversas consequências, como:

  • Aumenta o risco de seca no período de estiagem. As florestas funcionam como uma esponja, que ajuda a água da chuva a abastecer os lençóis freáticos. Sem árvores, a água escorre direto e evapora.

  • Assoreamento de rios. As raízes das plantas são responsáveis por segurar a terra nas margens. Sem as árvores e suas raízes, a chuva carrega lama e sujeira para os rios, diminuindo a profundidade e afetando a qualidade da água.

  • Calor extremo. A evaporação da água dos rios, junto com a umidade liberada pelas árvores, ajuda a regular a temperatura da região, evitando o calor extremo e garantindo chuvas regulares para a agricultura.

  • Afeta a vida selvagem. As matas ciliares dos cursos d'água servem como corredores ecológicos. Esses remanescentes de floresta permitem que os animais locais encontrem água, alimento e abrigo para se locomoverem com segurança entre os fragmentos de floresta.

  • Desequilíbrio do clima global. A Floresta Amazônica possui a função de sumidouro de carbono, absorvendo CO² e combatendo o efeito estufa. Sua importância está conectada com a influência nos padrões climáticos e prevenção da desertificação, sendo fundamental para mitigar as mudanças climáticas e garantir um clima mais ameno e estável no planeta.
Mapa do desmatamento na microbacia São João

Entre 2008 e 2025, foram identificados 62,32 km² de áreas desmatadas. Isso significa que mais 19,64% da área total da microbacia foi afetada nesses últimos anos.

A imagem à esquerda mostra a área da microbacia São João em 2008, que acumulava 173,12 km² de áreas desmatadas. Já a imagem da direita ilustra a situação atual da bacia com desmatamento total de 235,44 km².

Uma alternativa por meio da restauração

Em meio à degradação da Bacia do Rio Acre, um viveiro de produção de mudas desponta como alternativa para regeneração de ecossistemas. Inaugurado em 2023, o Viveiro SOS Amazônia está situado em uma região estratégica, com acesso via ramal de terra a 14 km da cidade de Capixaba e a 4 km da BR 317 (rodovia Transoceânica). Ele se localiza na microbacia do Igarapé Preto, que possui uma área total de 16,589 km² e, através de uma análise histórica, observa-se que a região sofreu uma perda severa de 87,28% da sua cobertura vegetal original.

Viveiro SOS Amazônia possui a capacidade de produzir 450 mil mudas por ano.

Em azul, está destacada a área de floresta próxima ao viveiro que precisamos garantir sua preservação. É possível observar o espaço sem vegetação nativa no entorno, correspondente às zonas de atividades agropecuárias.
A região apresenta uma elevada demanda por ações de restauração de nascentes e das margens de inúmeros afluentes, especialmente por concentrar uma das maiores áreas contínuas de desmatamento destinadas à expansão das atividades agropecuárias, incluindo o cultivo de soja, milho e cana-de-açúcar.
Diante desse cenário, a SOS Amazônia busca intensificar e consolidar suas ações de restauração florestal, aliando a recuperação de áreas degradadas à conservação da floresta em pé. Por meio da campanha Floresta em Pé, realizada na plataforma internacional de arrecadação GlobalGiving, a organização pretende viabilizar a aquisição de uma área de 45 hectares no entorno de uma nascente estratégica para a região.
A iniciativa parte da experiência acumulada pela SOS Amazônia em projetos de recuperação de nascentes no Acre e pretende desenvolver um modelo de restauração que possa ser replicado em outras microbacias. A proposta é gerar conhecimento, testar metodologias e demonstrar, na prática, caminhos possíveis para a recuperação e conservação desses territórios.
Para Miguel Scarcello, secretário-geral e cofundador da SOS Amazônia, iniciar esse trabalho na microbacia do viveiro representa uma oportunidade de construir conhecimento que poderá ampliar o impacto da iniciativa. “Desenvolver esse trabalho, começando pela Microbacia do Viveiro, é um passo importante para gerar conhecimento e experiências que nos orientem na restauração de outras microbacias.”
Scarcello ressalta que a restauração florestal é um processo contínuo e de longo prazo, que começa muito antes do plantio. Envolve desde a sensibilização de grandes e pequenos proprietários rurais sobre a importância de recuperar essas áreas até etapas como a preparação do solo, a produção e o plantio das mudas e a proteção das áreas restauradas contra impactos, como a entrada de animais bovinos.

“É preciso preparar o solo, ter as mudas prontas e proteger o local onde elas são plantadas para evitar, por exemplo, que o gado entre e cause danos. É um esforço que vai muito além do benefício direto para aquela propriedade. A restauração gera um efeito cascata positivo para toda a bacia do Rio Acre”, destaca.
Para os moradores de Rio Branco, os impactos da redução do volume de água do Rio Acre durante o período de seca já são perceptíveis e trazem consequências diretas para o abastecimento. Com a menor disponibilidade hídrica, aumentam também os custos de captação e tratamento, uma vez que a água apresenta maior turbidez e demanda o uso de uma quantidade maior de produtos químicos para alcançar os padrões adequados de qualidade. Se nós conseguirmos melhorar, passo a passo, cada microbacia, com certeza o Rio Acre terá uma oferta de água maior e de melhor qualidade”

Miguel Scarcello, secretário-geral e co-fundador da SOS Amazônia.

Conheça a campanha
A campanha “Protect the Amazon Rainforest”, criada pela SOS Amazônia na plataforma internacional GlobalGiving, tem como objetivo arrecadar recursos para a aquisição e proteção permanente de uma área de 45 hectares de floresta nativa na Amazônia.
Com a aquisição da área, a SOS Amazônia poderá assegurar a proteção permanente de uma floresta nativa que abriga uma importante nascente pertencente à bacia do Rio Acre. A conservação desse território contribui não apenas para a proteção e a disponibilidade dos recursos hídricos, mas também para a preservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos oferecidos pela floresta.

Entre os principais resultados esperados com a iniciativa estão:
  • Proteção da floresta nativa e da biodiversidade, conservando uma área que abriga uma rica variedade de espécies e recursos naturais;
  • Conservação da nascente e fortalecimento da segurança hídrica, contribuindo para a manutenção dos recursos que abastecem a população da região;
  • Fortalecimento do Viveiro SOS Amazônia, cuja produção de mudas de espécies nativas apoia iniciativas de restauração florestal;
  • Promoção da conectividade ecológica, contribuindo, no longo prazo, para a formação e manutenção de corredores entre áreas de floresta;
  • Proteção da fauna silvestre, garantindo habitat e condições mais favoráveis à sobrevivência e circulação das espécies;
  • Aumento da resiliência dos ecossistemas, fortalecendo sua capacidade de enfrentar impactos ambientais e mudanças no clima.
Com uma contribuição a partir de US$ 12, você ajuda a proteger a Floresta Amazônica e contribui para a conservação de uma área de 45 hectares de floresta nativa.

Doe, proteja a Amazônia e faça parte desse movimento pela floresta em pé.

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Publicado em 12/09/2019
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