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SOS Amazônia fortalece cadeia de valor do cacau silvestre

Por Bleno Caleb

Na Reserva Extrativista Chico Mendes e nas Florestas Nacionais de Macauã e São Francisco, no Acre, o cacau silvestre ainda não é utilizado comercialmente, mas apresenta grande potencial de mercado. O fruto ocorre em abundância nas florestas próximas ao Rio Iaco e pode ser utilizado na fabricação de chocolate, a exemplo de experiências bem sucedidas em outras regiões da Amazônia. Com o desenvolvimento do projeto Nossabio, a SOS Amazônia agrega 50 famílias na Resex Chico Mendes e outras 23 nas Flonas em torno da estruturação da cadeia de valor do cacau. 

O Nossabio compõe o Legado Integrado da Região Amazônica (Lira), uma iniciativa idealizada pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) para aumentar a efetividade de gestão das áreas protegidas da Amazônia.

O trabalho com cacau silvestre consiste em levar técnicas de manejo para aumento da produção e beneficiamento das amêndoas na própria comunidade. Álisson Maranho, secretário técnico da SOS Amazônia, explica que o fortalecimento dessa cadeia contempla a articulação com o setor privado, a fim de estabelecer uma relação comercial justa e duradoura com as comunidades, pagando preços acima do estabelecido pelo mercado.

“Os investimentos previstos nesta cadeia de valor e os preços que podem ser praticados com a comercialização dos produtos se tornarão atrativos para a adesão de novas famílias, além daquelas beneficiárias diretas do projeto”, considera Maranho.

A empresa Luisa Abram Chocolates é parceira do projeto na compra do cacau silvestre produzido em UCs do Acre. Fundada em 2014, a fábrica tem mais de 100 pontos de venda no Brasil e exporta para sete países, com destaque para os Estados Unidos. A matéria-prima usada na fabricação do chocolate é oriunda de comunidades ribeirinhas de diferentes regiões da Amazônia, o que gera oportunidades de trabalho e novas fontes de renda para a população.

Cacau silvestre da Amazônia apresenta grande potencial de mercado para fabricação de chocolate (Foto: SOS Amazônia)
Cacau silvestre da Amazônia apresenta grande potencial de mercado para fabricação de chocolate (Foto: SOS Amazônia)

Valores da Amazônia
A SOS Amazônia já possui experiência com o desenvolvimento de atividades ligadas à produção do cacau silvestre. Prova disso é o Projeto Valores da Amazônia, executado em 2015, com foco na estruturação, fortalecimento e integração de cadeias de valor de produtos florestais não madeireiros no Acre e no Amazonas, visando o uso sustentável dos recursos e a melhoria da qualidade de vida das populações locais.

Francisco Andriola, extrativista da região do Vale do Juruá, no Acre, relata que a comunidade onde reside possui muitos pés nativos de cacau, mas os próprios moradores desconheciam o potencial de mercado do fruto. “No primeiro ano de trabalho, conseguimos fermentar e secar mil quilos de amêndoas, o que foi espetacular e trouxe lucro para as famílias”, conta.

Nos anos seguintes, o resultado não foi tão positivo, devido a condições climáticas que influenciam a frutificação das árvores. “O desafio maior é a própria natureza. Tem ano que produz mais, outros menos, e as árvores não produzem de maneira igual. Às vezes, a cheia do rio atrapalha um pouco a produção”, deduz.

Com o apoio da SOS Amazônia, a comunidade de Francisco Andriola manteve firme o propósito e ampliou o número de famílias no âmbito do projeto, o que proporcionou o aumento da produção. Para tanto, foi entregue um barco de médio porte destinado ao transporte dos frutos.

Extrativista do Vale do Juruá, no Acre, navega por igarapé em busca do cacau silvestre (Foto: SOS Amazônia)
Área onde ocorre cacau silvestre no Vale do Juruá, no Acre (Foto: SOS Amazônia)

Projeto Nossabio
O Projeto Nossabio foi aprovado em dezembro de 2019, por meio do Legado Integrado da Região Amazônica (Lira), programa brasileiro de conservação idealizado pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), com recursos do Fundo Amazônia e da Fundação Gordon e Betty Moore. O programa foi concebido para aumentar a efetividade de gestão das áreas protegidas da Amazônia, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas, bem como estruturar cadeias de valor a partir de produtos da sociobiodiversidade.

Cerca de 315 famílias são contempladas em cinco Unidades de Conservação (UCs): Reserva Extrativista Chico Mendes, Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema, Floresta Nacional de São Francisco, Florestal Nacional do Macauã (no Acre) e Parque Estadual de Guajará-Mirim (em Rondônia). A SOS Amazônia é responsável pela gestão operacional do projeto em estreita ligação com organizações sociais, cooperativas e associações extrativistas de cada uma das unidades.

Fruto ocorre em abundância nas florestas próximas ao Rio Iaco, no Acre (Foto: SOS Amazônia)
Fruto ocorre em abundância nas florestas, às margens dos rios amazônicos (Foto: SOS Amazônia)
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