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Extrativistas do AC e AM obtêm certificação orgânica para mercado internacional

Por Fábio Pontes

Foto destaque: André Dib


As famílias extrativistas do Vale do Juruá, no Acre, e dos municípios de Silves e Boca do Acre, no Amazonas, que atuam na extração do cacau silvestre e na produção de óleos de plantas e sementes, receberam em outubro a certificação orgânica internacional que possibilitará a venda de seus produtos para os mercados europeu e norte-americano.


A certificação foi obtida graças ao projeto “Valores da Amazônia”, desenvolvido pela organização não-governamental SOS Amazônia. Financiado com recursos do Fundo Amazônia/BNDES, o projeto visa fortalecer nove cooperativas e seus cooperados para aperfeiçoarem e padronizarem a exploração de produtos florestais não-madeireiros de regiões da Amazônia com grande concentração de biodiversidade, incluindo o Vale do Juruá.

A certificação assegura que toda a produção foi realizada com baixo impacto ambiental, sem o uso de agrotóxicos e garantindo o pagamento justo para cada família, reunidas em cooperativas assessoradas pela SOS Amazônia.


Neste primeiro momento, quatro cooperativas foram certificadas, totalizando 211 famílias no Acre e no Amazonas, sendo parte delas moradoras de unidades de conservação.

São elas: Coopfrutos (Cooperativa de Produtores de Polpa de Frutos Nativos de Mâncio Lima – Mâncio Lima/AC), Coopcintra (Cooperativa dos Produtores de Agricultura Familiar e Economia Solidária de Nova Cintra – Rodrigues Alves/AC), Copronat (Cooperativa de Produtos Naturais da Amazônia – Silves/AM) e a Cooperar (Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e do Médio Purus – Boca do Acre/AM).


A certificação foi concedida pela empresa boliviana Imocert, uma das pioneiras neste tipo de trabalho na América Latina, e com reconhecimento internacional.

Entre os produtos que ganharam a certificação orgânica estão os óleos de buriti, cumaru, o Essencial de Breu e do açaí. Também receberam o selo de origem orgânica a amêndoa de cacau, a manteiga de murmuru, o tucumã, a andiroba, a castanha, a copaíba e outros.


Murmuru - Astrocaryum murumuru | Foto: SOS Amazônia / Eliz Tessinari


“O projeto de certificação foi muito novo para nós”, diz Thayna Souza, engenheira florestal da SOS Amazônia. “Estávamos buscando uma certificação orgânica para acessar mercados exigentes, mas que pagam bem pelo produto por ter origem na Amazônia e de comunidades tradicionais.”


Capacitação das famílias

O trabalho foi iniciado ainda em 2017 e concluído agora em outubro de 2018, com a entrega dos certificados pela Imocert. A primeira fase consistiu em explicar às famílias sobre a importância da certificação, que poderia ter como resultado a melhoria em seus processos produtivos e de renda.


Todas as famílias extrativistas receberam a visita dos técnicos da SOS Amazônia, pelo menos duas vezes. Já as idas às sedes das cooperativas – apenas para este processo inicial – se deram entre quatro e cinco vezes.

O principal objetivo era capacitar os cooperados para que aprendessem e inserissem procedimentos novos às técnicas de manejo sustentável de sua produção dentro da floresta, o que assegura o menor impacto ambiental e qualidade ao produto.

 

Áreas de cacau silvestre - Inspeção IMOcert | Foto Acervo SOS Amazônia

A qualificação se constitui na adoção de boas práticas de extração e coleta dos recursos naturais. As cooperativas precisam estabelecer rotinas e um padrão ao processo de beneficiamento que garantam características originais e não contaminação das gorduras e óleos produzidos.


Após essa qualificação, todo o trabalho desenvolvido passou por uma espécie de auditoria da certificadora para saber se todas as suas exigências estavam, de fato, sendo cumpridas.

Constatado que as famílias atendiam aos critérios e que as cooperativas passaram a produzir com o novo padrão, a Imocert concedeu o selo de que a produção destas cooperativas está livre do uso de agrotóxicos e outros contaminantes, e adotando práticas que preservam a fauna e a flora da região, além de assegurar às famílias o pagamento justo por aquilo que conseguem entregar.


“Com a certificação orgânica, as cooperativas chegaram a um novo patamar, tanto por ser algo que vai valorizar o trabalho do extrativista, como vai valorizar o produto da floresta para que ela fique cada vez mais em pé”, comemora Thayna Souza.

 

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