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Projeto Mulheres da Borracha elabora folheto sobre direitos sociais das mulheres da floresta

Mulheres em deslocamento pelo Rio Bagé para participar de oficina do projeto Mulheres da Borracha na Resex do Alto Juruá (Foto: Fiama Natacha)

O trabalho da extração da borracha tem um papel de protagonismo na história da Amazônia legal, principalmente nos estados do Acre, Amazonas e Pará. Grandes nomes, como o de Chico Mendes e Marina Silva, surgiram no contexto extrativista e de proteção das florestas e seus povos. Entretanto, nesse cenário, o trabalho desempenhado por mulheres sempre foi invisibilizado, seja cortando madeira, extraindo látex ou produzindo a borracha, gerações anteriores nunca chegaram a ser legitimadas como “soldadas da borracha”, e, hoje em dia, muitas mulheres ainda não tem acesso aos seus direitos pela falta de reconhecimento.

O projeto Mulheres da Borracha, desenvolvido pela SOS Amazônia, o Instituto de Desenvolvimento Social (IDS) e a empresa Veja, foi idealizado com o objetivo de conscientizar as mulheres sobre sua participação na produção de borracha sustentável e aumentar a visibilidade do seu trabalho.

Para reforçar o movimento de conscientização do protagonismo feminino, foi elaborado um folheto informativo sobre o direito das mulheres trabalhadoras das florestas, das águas e do campo. As informações reunidas são voltadas para os benefícios existentes para as mulheres, os documentos necessários para garanti-los e onde obter mais orientações.

A coordenadora do projeto na SOS Amazônia, Gabriela Antonia, relembra que a iniciativa do folheto surgiu a partir da observação dos relatos das mulheres que participaram do projeto em sua primeira fase, no Acre. “O interesse e as dúvidas sobre seus direitos sociais eram muito latentes nas oficinas. Foi aí que percebemos a necessidade de transformar essas informações em um material acessível”, relata Gabriela.

O folheto tem como público-alvo trabalhadoras rurais, extrativistas, ribeirinhas e agricultoras familiares, que, por muitas vezes, não têm acesso aos seus direitos por falta de orientações. Apesar de ter como foco as mulheres, o material alcança também suas famílias que obtêm esses benefícios em conjunto.

Dentre os principais direitos sociais presentes no material, estão o auxílio-maternidade, a aposentadoria rural, cadastro no INSS como seguradora especial, documentação básica e específica do campo e participação em programas de apoio.
Mulheres da Borracha

“Mais do que apoiar, a ideia do projeto é escutar, aprender com elas e abrir espaço para que possam participar de forma mais justa e fortalecida em toda a cadeia”, diz Wendy Carvalho, representante da Veja. O projeto, capitaneado inicialmente pela empresa Veja e o IDS, teve início em 2019 com a realização de oficinas em quatro cooperativas do Acre, já com o foco no público feminino. Com o aumento da base produtiva, tornou-se necessária a expansão das atividades por todo o estado e, assim, foi firmada a parceria com a SOS Amazônia e oficializado o Mulheres da Borracha.

“Antes eu estava na sombra do meu marido. Agora, eu tenho que me valorizar e reconhecer meu lugar”, diz Sirlei Gomes da Silva, de 44 anos, que começou a trabalhar na função do corte de seringa após seu marido apresentar complicações da covid-19. Desde a infância, acompanhava o pai nas estradas da seringa e sonhava em seguir seus passos como seringueira: “Mas ele nunca me deixava cortar porque tinha ciúme das estradas dele, dizia que um corte errado podia prejudicar a seringueira”, relembra.
Sirlei foi uma das participantes da primeira fase do projeto, iniciada em 2022, no Acre, que alcançou mais de mil mulheres, em 14 municípios, com cerca de 40 encontros para realização de oficinas comunitárias. Já a segunda fase ocorre no estado do Amazonas e, até o momento, foram realizadas cerca de 12 oficinas, abrangendo uma média de 300 mulheres, em quatro municípios.
As atividades são realizadas por meio de oficinas comunitárias, que envolvem atividades lúdicas, dinâmicas em grupo e fornece informações importantes sobre o trabalho extrativista e a cadeira da borracha. O objetivo é promover a troca de experiências, conhecimentos e despertar a autoconfiança e valorização do trabalho realizado pelas mulheres.

“É um processo que promove um autorreconhecimento como mulher da floresta e trabalhadora rural”, explica a consultora do IDS, Débora Almeida, uma das responsáveis pelo roteiro metodológico das atividades. Para Débora, o projeto abrange a complementaridade do papel do homem e da mulher na cadeia produtiva da borracha, contribuindo para o lema ‘borracha sustentável é produção familiar’.

O Instituto de Desenvolvimento Social foi o parceiro da Veja desde o início do projeto em 2019, e quem preparou a base metodológica dos ciclos de oficinas. Débora explica como é adotado um cuidado metodológico para que sejam atividades efetivas, sem impor um dogma e, sim, propor uma sensibilização pessoal para que as mulheres em si possam gerar a mudança em suas próprias vidas.
Impactos

Além de coordenadora, Gabriela Antonia também ministra as oficinas e, tendo contato direto com as mulheres participantes, relata como é uma experiência transformadora na vida delas. As oficinas são realizadas em locais de difícil acesso, levando informações confiáveis e fortalecendo o sentimento de pertencimento ao título de trabalhadora da floresta.
Com esses ingredientes, os resultados são mulheres fortalecidas e com uma nova percepção de quais são seus direitos e como buscá-los. “Muitas mulheres passam a contribuir ativamente com as associações, a buscar benefícios que antes pareciam distantes e até a apoiar outras mulheres em situações parecidas”, explica.

Ações de projetos como esse reafirmam o papel da SOS Amazônia dentro da floresta e sua missão de fortalecer e proteger seus povos. “Um dos nossos objetivos é facilitar o acesso à informação, promover formação com uma metodologia que respeite o olhar amazônico, humanizado e de gênero, e viabilizar um pouco mais de dignidade para essas populações”, acrescenta a coordenadora do projeto. “As mulheres que fazem parte do nosso público — ribeirinhas, extrativistas, agricultoras familiares, moradoras de áreas remotas — são invisibilizadas há muito tempo. São elas que seguram as pontas da produção, do cuidado da família e da floresta, mas raramente são reconhecidas institucionalmente”.
Cadeia da Borracha

“Nós acreditamos que, quando uma mulher tem sua voz ouvida e seu trabalho valorizado, todo o sistema melhora”, declara os representantes da Veja, Wendy Carvalho e Carlos Eduardo Rigolo. A empresa utiliza a borracha natural da região amazônica para a produção de seus calçados e trabalha em parceria com cooperativas e associações locais, onde as famílias extrativistas operam.

O apoio a essas famílias é um exemplo de ação que incentiva os modos de vida tradicionais e que colabora com a manutenção da floresta em pé. “Na Veja, nós entendemos que o trabalho com a borracha não é só sobre a matéria-prima em si, mas sobre as famílias produtoras extrativistas que estão por trás dela”, explica Wendy.

Para a empresa, além da compra da borracha, também é essencial projetos, como o Mulheres da Borracha, que pensem no bem-estar da população tradicional: “Nosso desejo é que o projeto siga como uma semente que inspira outras iniciativas, fortaleça vínculos nos territórios e contribua para que cada vez mais mulheres tenham sua voz ouvida, seus saberes valorizados e seus direitos garantidos na floresta”.
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